Hackers exploraram uma falha crítica, retiraram quase 4 mil bitcoins e depois devolveram 85% dos fundos, deixando uma pergunta incômoda sobre a segurança das estruturas construídas ao redor do Bitcoin
Um dos maiores incidentes envolvendo infraestrutura de criptomoedas em 2026 colocou novamente a segurança das redes construídas sobre o Bitcoin no centro das atenções. Em 6 de setembro, invasores exploraram uma vulnerabilidade relacionada à Liquid Network e conseguiram retirar aproximadamente 4 mil bitcoins da carteira da federação, avaliados em cerca de US$ 320 milhões naquele momento.
O episódio ganhou contornos ainda mais incomuns porque os responsáveis se apresentaram como white-hat hackers, expressão utilizada para hackers que afirmam explorar vulnerabilidades com o objetivo de demonstrar falhas de segurança em vez de simplesmente roubar os ativos.
Pouco depois da correção do problema, eles devolveram aproximadamente 3.400 BTC — cerca de 85% do total retirado. Mesmo assim, quase 598,5 BTC continuaram sob controle dos responsáveis pelo ataque, representando dezenas de milhões de dólares.
Como foi possível retirar quase US$ 320 milhões?
Para entender o ataque, é necessário compreender a função da Liquid.
A rede é uma sidechain do Bitcoin, criada para permitir transferências mais rápidas e confidenciais, além da emissão de ativos digitais. Quando bitcoins são transferidos para esse ambiente, eles são representados por um ativo chamado L-BTC, que normalmente deve possuir lastro de 1 para 1 em BTC mantido pela federação.
O problema não teria ocorrido por meio do roubo tradicional de uma chave privada.
Segundo análises do incidente, uma vulnerabilidade no software Elements permitiu a criação de L-BTC sem o bitcoin correspondente como garantia. Os ativos sem lastro puderam então ser utilizados em uma operação de saída da Liquid para Bitcoin real.
A Chainalysis afirma que a falha estava relacionada ao software de validação de transações da rede, permitindo que os responsáveis criassem L-BTC sem lastro e posteriormente os trocassem por BTC verdadeiro.
Isso criou uma situação extremamente perigosa: ativos que deveriam representar bitcoins depositados passaram a existir sem que houvesse BTC equivalente protegendo sua emissão.
Quase 95% da reserva saiu da carteira
Antes do incidente, a carteira da federação mantinha aproximadamente 4.200 BTC. Cerca de 4 mil bitcoins foram retirados, o equivalente a aproximadamente 95% dessa reserva.
A própria Blockstream informou inicialmente que os fundos haviam sido retirados utilizando a autorização de peg-out da SideSwap, mas destacou que a chave utilizada nesse processo não havia sido comprometida. Como medida preventiva, os bridge nodes foram desativados e novas operações foram interrompidas.
O tamanho da movimentação tornou o episódio particularmente relevante para o mercado. A TRM Labs classificou o caso como o maior ataque envolvendo criptomoedas registrado em 2026 até aquele momento.
Hackers devolveram US$ 272 milhões
O comportamento dos responsáveis tornou a história ainda mais extraordinária.
Após contatos realizados por mensagens registradas na blockchain, aproximadamente 3.400 BTC foram enviados de volta à carteira associada à Liquid Federation em 7 de setembro.
Isso corresponde a aproximadamente 85% dos bitcoins retirados.
Os responsáveis mantiveram cerca de 598,5 BTC, avaliados próximo de US$ 47 milhões nas estimativas divulgadas após o episódio.
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Apesar da autodenominação de hackers éticos, manter uma parcela tão elevada dos recursos gera questionamentos sobre quais seriam suas reais intenções e se o montante restante poderia ser interpretado como uma recompensa não negociada pela descoberta da vulnerabilidade.
O Bitcoin foi hackeado?
Não.
Essa distinção é essencial para investidores.
A blockchain principal do Bitcoin não foi comprometida. O incidente ocorreu em uma infraestrutura construída ao redor dela.
A Liquid possui seu próprio modelo de funcionamento, validadores, software e mecanismos utilizados para movimentar BTC entre a blockchain principal e a sidechain. Portanto, uma vulnerabilidade nesse sistema não significa que as regras de consenso ou a criptografia da rede Bitcoin tenham sido quebradas.
O caso demonstra justamente uma das questões mais importantes da segurança em criptomoedas: mesmo quando uma blockchain principal permanece segura, bridges, sidechains, contratos inteligentes, exchanges e outros componentes adicionais podem introduzir novas superfícies de ataque.
Liquid começa a voltar à operação
Em 10 de setembro, surgiu um novo sinal de recuperação.
A Liquid Network voltou a produzir blocos e os mercados da SideSwap foram reabertos. Entretanto, as operações de peg-in e peg-out — responsáveis pela movimentação entre Bitcoin e Liquid — continuavam fechadas enquanto a federação realizava sua revisão de segurança.
Isso significa que a retomada ainda não representa uma normalização completa do sistema.
O episódio provavelmente exigirá auditorias adicionais, revisão dos mecanismos de validação e mudanças no processo de movimentação das reservas antes de uma recuperação integral da confiança.
Um alerta que vai além da Liquid
O ataque de US$ 320 milhões mostra que o crescimento das soluções construídas sobre Bitcoin também amplia a complexidade tecnológica do ecossistema.
Sidechains podem oferecer velocidade, privacidade e novos recursos financeiros, mas cada camada adicional cria códigos, validadores e mecanismos que precisam funcionar corretamente.
Para investidores, exchanges e desenvolvedores, a principal lição é clara: a segurança de um ativo não depende apenas da blockchain onde ele nasceu. Também depende da infraestrutura utilizada para custodiá-lo, representá-lo e movimentá-lo.
O Bitcoin continuou funcionando normalmente durante todo o incidente. A vulnerabilidade estava ao seu redor.
E essa diferença pode se tornar cada vez mais importante à medida que bilhões de dólares passam a circular por novas camadas financeiras construídas sobre a maior criptomoeda do mundo.


