Bancos americanos acreditam que a expansão da IA ainda está no começo e poderá impulsionar financiamentos, aquisições, infraestrutura e novas fontes de receita durante vários anos
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A corrida global pela inteligência artificial está deixando de ser apenas uma disputa tecnológica. Para os maiores bancos de Wall Street, ela começa a assumir as características de um gigantesco ciclo de investimentos, comparável à expansão da internet, à eletrificação industrial e à construção das redes de telecomunicações.
Executivos de instituições como Goldman Sachs, Morgan Stanley, Citigroup e Bank of America avaliam que empresas de tecnologia precisarão captar volumes cada vez maiores de recursos para construir centros de processamento, adquirir chips avançados e garantir o fornecimento de energia. Esse movimento poderá gerar uma onda prolongada de empréstimos, emissões de títulos, ofertas de ações e aquisições corporativas.
O que significa o superciclo da IA
Um superciclo ocorre quando uma transformação econômica produz investimentos crescentes durante vários anos, alcançando diferentes setores. No caso do superciclo da IA, o fenômeno não envolve apenas desenvolvedores de softwares ou fabricantes de semicondutores.
A expansão depende de terrenos, sistemas de refrigeração, redes elétricas, cabos de fibra óptica, servidores, equipamentos industriais e enormes quantidades de energia. Também exige profissionais especializados, contratos de longo prazo e estruturas financeiras capazes de sustentar projetos bilionários.
David Solomon, CEO do Goldman Sachs, afirmou que o desenvolvimento da infraestrutura de IA ainda está em seus estágios iniciais. Segundo o executivo, o mercado atravessa um ciclo de despesas de capital que deverá utilizar praticamente todos os instrumentos de financiamento disponíveis.
Essa avaliação ajuda a explicar por que os grandes bancos acompanham o avanço da IA com tanto interesse. Quanto maior o investimento das empresas, maior tende a ser a demanda por serviços financeiros.
Bancos podem ganhar com financiamentos e ofertas de ações
Os bancos de investimento atuam como intermediários em operações de captação de recursos. Eles organizam emissões de ações, estruturam empréstimos, vendem títulos de dívida e assessoram empresas em processos de compra, venda ou abertura de capital.
O crescimento dos investimentos em IA poderá elevar as receitas geradas por essas operações. Empresas que antes financiavam seus projetos principalmente com o próprio caixa estão recorrendo cada vez mais aos mercados de crédito.
O Morgan Stanley estima que as emissões globais de dívidas relacionadas à IA poderão chegar perto de US$ 570 bilhões em 2026, mais que o dobro do volume registrado anteriormente. Até o final de maio, aproximadamente US$ 236 bilhões já haviam sido emitidos, quatro vezes mais que no mesmo período do ano anterior.
Além da dívida, ofertas públicas de ações e listagens de empresas ligadas à tecnologia poderão ampliar as comissões recebidas pelos bancos. O interesse dos investidores em companhias posicionadas na cadeia da IA cria condições favoráveis para novas operações no mercado de capitais.
Data centers tornam-se a nova infraestrutura estratégica
O centro dessa transformação está nos data centers. Essas instalações concentram milhares de servidores responsáveis pelo treinamento e pela operação dos modelos de inteligência artificial.
De acordo com o Morgan Stanley, o custo global de construção dessa infraestrutura poderá alcançar aproximadamente US$ 2,9 trilhões até 2028. Mais de 80% desse investimento ainda estaria por acontecer, indicando que o ciclo pode permanecer ativo por vários anos.
As projeções também estão aumentando rapidamente. Estimativas mencionadas pelo CEO do Morgan Stanley, Ted Pick, indicam que os gastos com centros de dados em 2026 podem chegar a cerca de US$ 850 bilhões. Para 2027, as projeções já alcançam US$ 1,3 trilhão, enquanto 2028 poderia registrar aproximadamente US$ 1,5 trilhão.
Esses números mostram que a IA está se transformando em um projeto de infraestrutura global, e não apenas em uma tendência passageira do setor de tecnologia.
Fusões e aquisições podem ganhar força
Outro possível efeito será o aumento das fusões e aquisições. Empresas tradicionais que não possuem tecnologia, profissionais ou capacidade computacional própria podem preferir comprar startups especializadas em vez de desenvolver soluções internamente.
Companhias de software, segurança digital, automação, robótica, processamento de dados e energia poderão tornar-se alvos estratégicos. A necessidade de incorporar rapidamente recursos de IA tende a acelerar decisões corporativas que, em condições normais, demorariam anos.
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O Morgan Stanley observa que a pressão competitiva já está antecipando movimentos de aquisição, principalmente entre empresas interessadas em obter conhecimento técnico, ampliar sua base de clientes e acelerar a entrada em novos mercados.
Para Wall Street, cada aquisição pode gerar receitas com consultoria, financiamento, avaliação de empresas e organização da transação.
O setor financeiro também usará IA internamente
Os bancos não pretendem apenas financiar a revolução tecnológica. Eles também estão incorporando inteligência artificial às próprias operações.
A tecnologia poderá ser utilizada na análise de riscos, prevenção de fraudes, atendimento ao cliente, negociação de ativos e automação de tarefas administrativas. O Morgan Stanley calcula que a adoção ampla da IA pode elevar a produtividade de determinadas atividades bancárias entre 20% e 50% nos próximos cinco a dez anos.
A combinação de novas receitas com redução de custos ajuda a explicar o otimismo de Wall Street. Os bancos podem lucrar tanto com os investimentos realizados por seus clientes quanto com a modernização de suas próprias estruturas.
O superciclo também apresenta riscos
Apesar das projeções bilionárias, o crescimento não será linear. A construção de centros de dados enfrenta limitações relacionadas ao fornecimento de energia, à disponibilidade de equipamentos e às autorizações ambientais.
O Morgan Stanley projeta que a demanda dos centros de dados americanos poderá atingir 74 gigawatts até 2028, com uma possível insuficiência de aproximadamente 49 gigawatts na capacidade energética disponível.
Valorações elevadas, aumento do endividamento, mudanças regulatórias e dificuldades para transformar investimentos em lucros também podem provocar correções no mercado.
Ainda assim, a avaliação predominante nos grandes bancos é que a IA entrou em uma fase de implantação industrial. Chips, energia, crédito, infraestrutura e software passaram a fazer parte de uma mesma cadeia econômica.
Caso as projeções se confirmem, o maior negócio da inteligência artificial poderá não estar apenas nos algoritmos. Ele estará também na gigantesca estrutura financeira necessária para construir a economia digital das próximas décadas.
